A despeito de Sartre

Se todo homem é uma ilha

onde um náufrago respira;

se o outro é firme sustentáculo

 

sem o qual cairíamos

                             - inertes -

com o fardo medonho do ego;

se o inferno do tolo é o ouro,

não o de tolo mas, o outro:

o que reluz de verdadeiro,

áureo desejo do comum dos homens

(autólatras anônimos,

ébrios Narcisos espelhando-se

                             em vômito);

se nenhum homem é uma trilha

intransitável aos demais,

quem será o inferno do homem?

 

quinta 28 maio 2009 10:51


Humano demais

Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo,
corpo de luz esvaído
ao frágil sopro das horas,
borboleta encarcerada
na inércia dos casulos.
Somos o verbo inflamado
que nem se sabe murmúrio.


Sísifos de eras modernas,
divisamos, consternados,
a queda sem-fim dos dias.
Somos ribalta em penumbra,
flor de luto, fogo-fátuo,
ar rarefeito, centelha
que ignora e traz em si
a essência da fogueira.


Alimárias do universo,
erguemos, inconseqüentes,
o fardo livre do arbítrio.
Somos migalhas do eterno,
ouro vulgar de Eldorado,
mirante entre turbilhões,
luz em mãos de moribundo,
face-mistério da lua.


Bando de pássaros mudos
que ao toque do Ângelus fere
um céu sedento de canto,
somos razão em delírio,
rastro de Halley, sol posto,
cenho ferido de morte,
água barrenta que esquece
o veio de onde jorrara.


Somos pedaços de Deus
sob o signo do tempo.

segunda 20 abril 2009 19:35


Haicais

I
Onde a primavera?
O outono planta os plátanos
de ponta-cabeça.


II
A chuva passou:
na valise do horizonte,
alça colorida.


III
As bênçãos dos céus
são chuvas, e os homens, uvas
das vinhas de Deus.

segunda 20 abril 2009 19:24


Lagoa da Luz revisitada

para a vó Neves

Éden da alma/lama de tijolo e gesso,

onde o umbigo - plantado em dor

e em fé regado - medrou poeta,

as candeias semearam lendas

para a ceia das tilápias

e as lágrimas pró-vida já continham

o sal dessa água doce.

 

Pátria extinta de Izabel Francisco,

Maria Sebastião e tantos santos

(não há milagre que suplante a vida!).

Avós em êxodo; avôs em hégira.

 

Hoje, o espírito paira sobre as águas

e homem nenhum habita o paraíso.

– Deus, em que ato vil nossa nudez

feriu Teus olhos?

 

De resto, não a fotografia na parede,

mas o alento canoro das aves,

os dedos incrustando a memória dos tijolos,

a paisagem engessada nos bilros da avó

e as artérias de arames rasgando

o coração dos mortos.

domingo 23 novembro 2008 17:20


Bomba de paz

Blog de arestas :ARESTAS - poesias, Bomba de paz

Algo de novo no front!

O grande pacifista Gandhi,

guerrilheiro das armas caladas,

jogou sobre o Reino Unido

            a palavra:

única arma a murmurar metralha;

bomba de paz lacrimogênea,

rara, mas que comove

e move o pau-de-arara.

 

Gullar, a guerra é fria e calculista

e mata mais que a diarréia!

 

Vejo a paz, viúva-branca de Gandhi,

espreitar, do alto de seu terno amor,

os autores do medo amortalhar seus filhos...

 

Que toquem, então, as trombetas

em desonra à guerra,

esse teatro do absurdo!

E, pelos pávidos atores,

introduzo na poesia a palavra

 merda!

domingo 23 novembro 2008 17:13


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